Pré-candidato, José Dirceu aponta posição estratégica de Campinas nas eleições
Aos 80 anos, José Dirceu busca o retorno à vida pública como pré-candidato a uma cadeira na Câmara dos Deputados e atribui a Campinas papel central na estratégia do Partido dos Trabalhadores para recuperar espaço no interior paulista. Em entrevista ao Diário, o ex-ministro da Casa Civil afirmou que a cidade reúne características decisivas para o projeto eleitoral a ser defendido pela legenda: força industrial, universidades, centros de pesquisa, empresas de tecnologia e presença expressiva do mundo do trabalho. Como peça importante do xadrez eleitoral de 2026, Campinas foi escolhida pelo PT para sediar a convenção que irá lançar a candidatura de Fernando Haddad ao governo paulista, neste sábado, 25, com a presença do presidente Lula.
Em meio ao tratamento de um linfoma, Dirceu mantém a intenção de disputar uma nova eleição e afirma que a iniciativa tem um significado de reparação pessoal. Ele afirmou que considera injusta a perda do mandato de deputado federal, cassado pela Câmara em 2005, após sua saída da Casa Civil durante a crise política do Mensalão. Depois de cumprir parte da pena e receber indulto no caso, e ter condenações anuladas em ações da Lava Jato, o ex-ministro disse que pretende responder a eventuais acusações com fatos e decisões, sem permitir uma “criminalização da política”, mas também sem deixar esses temas dominarem os debates. “Não volto movido por ressentimento, volto para disputar o futuro”, disse. Como líder histórico do PT, também prega humildade do partido para reconhecer erros e conversar com eleitores perdidos.
Além da própria candidatura, o político aponta como prioridades de sua campanha a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a eleição de Haddad em São Paulo. Para ele, a formação de uma bancada mais próxima das pautas do governo seria necessária para alterar a relação de forças no Congresso Nacional.
Mineiro de Passa Quatro, onde nasceu em 1946, José Dirceu chegou à capital paulista em 1961 para estudar e trabalhar. Aluno do curso de direito da PUC, foi vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes e, em 1967, assumiu a presidência da União Estadual dos Estudantes (UNE) de São Paulo. Em 1968, foi preso durante a tentativa de realização do 30º Congresso da UNE, em Ibiúna (SP). Em 1969, após o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick por organizações de oposição à ditadura, Dirceu foi libertado ao lado de outros 14 presos políticos e enviado ao México. Depois, viveu, trabalhou e estudou em Cuba.
Retornou clandestinamente ao Brasil em 1975 e passou a viver em Cruzeiro do Oeste, no Paraná. Voltou a São Paulo em 1979, beneficiado pela Lei da Anistia, e participou da fundação do PT. Dirceu foi deputado estadual entre 1987 e 1991 e em seguida exerceu mandatos consecutivos como deputado federal. Em 2003, assumiu a Casa Civil no primeiro governo Lula, cargo que ocupou até 2005. Condenado no processo do Mensalão (de pagamentos de vantagens a parlamentares, no qual nega envolvimento), cumpriu pena no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília. Posteriormente, enfrentou processos relacionados à Operação Lava Jato.
O ex-ministro sustenta que sofreu perseguição política e jurídica nesses casos, cita decisões posteriores do Supremo Tribunal Federal (STF) contra as decisões da Lava Jato e disse que pretende buscar uma revisão criminal. “Preciso lembrar que fui preso ilegalmente três vezes, todas elas revogadas pelo STF. Fui condenado injustamente, e todos os inquéritos e processos foram arquivados ou resultaram em absolvição. Cumpri pena como cidadão brasileiro respeitoso do Estado Democrático de Direito que sou. Depois, obtive o direito ao indulto e me reservo o direito à revisão criminal, que espero alcançar ainda em vida”, declarou.
Campinas na campanha
A escolha de Campinas para atividades relacionadas às campanhas presidencial e estadual não é tratada por Dirceu apenas como decisão logística. Para ele, a cidade funciona como porta de entrada para o interior, facilita a mobilização de diferentes regiões e reúne setores considerados essenciais à agenda econômica.
O município foi escolhido para receber o lançamento da candidatura Haddad ao Palácio dos Bandeirantes, em evento previsto com a presença de Lula, das pré-candidatas ao senado Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) no clube Concórdia, em Sousas, a partir das 9h deste sábado, 25. A primeira cidade considerada para a atividade era Ribeirão Preto, mas o planejamento foi alterado. Segundo Dirceu, a decisão reuniu critérios políticos, estratégicos e operacionais. “A cidade tem grande importância regional, facilita a mobilização de diferentes áreas do estado e simboliza uma agenda de desenvolvimento, ciência, tecnologia e reindustrialização. É também uma demonstração clara de que a disputa pelo futuro de São Paulo passa pelo interior”, disse.
O ex-ministro considera que o desempenho nas cidades médias e grandes do interior será determinante para as candidaturas petistas. Nas últimas eleições, o partido encontrou dificuldades para avançar entre parcelas do eleitorado paulista situadas fora da Grande São Paulo. Dirceu relaciona esse cenário ao desgaste provocado pela crise política, pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e pela Operação Lava Jato, além da necessidade de o partido ampliar sua presença nos municípios.
Segundo ele, uma recuperação buscada pelo partido passa pela apresentação do legado dos governos petistas e exigirá diálogo direto com os moradores, propostas relacionadas aos problemas enfrentados pelas cidades, além de uma retomada do diálogo com municípios nos quais a legenda já teve maior presença política.
Dirceu avalia que apresença da Unicamp, do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) e do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPQD) coloca Campinas em posição importante para participar de um projeto de reindustrialização que será defendido pelo partido nas eleições.
Ela argumenta que o governo federal precisa utilizar financiamento público, formação profissional, compras governamentais e parcerias com instituições científicas para transformar pesquisas em produtos, empregos qualificados e maior autonomia tecnológica para o país. “Isso exige financiamento de longo prazo, compras públicas, formação profissional e parcerias entre Unicamp, CNPEM, CPQD, empresas, Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), com missões nacionais em semicondutores, saúde, biotecnologia, inteligência artificial, tecnologias quânticas e transição ecológica”, afirmou.
Para Dirceu, Campinas pode assumir papel relevante na articulação entre universidades, centros de pesquisa, empresas privadas, instituições de financiamento e políticas industriais. Ele relacionou essa estratégia à Nova Indústria Brasil, ao BNDES e ao Programa de Aceleração do Crescimento e à transição energética. Na avaliação do ex-ministro, uma política externa voltada à abertura de mercados também seria necessária para ampliar a participação brasileira nas exportações de produtos de média e alta tecnologia.
Congresso e Orçamento
A tentativa de retornar à Câmara ocorre em um momento no qual o Congresso ampliou sua influência sobre o Orçamento da União. Na opinião de Dirceu, a fragmentação partidária e o perfil conservador da maioria dos parlamentares dificultaram o avanço de políticas defendidas pelo governo Lula.
“O presidente Lula acertou na geração de emprego e renda, na reconstrução das políticas sociais, na retomada da política industrial e na defesa da democracia, mas muito do que precisava ser feito foi impedido por um Congresso majoritariamente conservador, parte dele hostil às pautas progressistas e movida por outros interesses”, disse, ao defender “uma nova correlação de forças” para disputar a agenda pública.
Antipetismo e agenda programática
O ex-ministro reconheceu que o PT precisa ouvir as críticas e admitir os próprios erros para alcançar eleitores que se afastaram da legenda. Na visão dele, o antipetismo não constitui uma posição definitiva de todos os que votaram contra o partido nas últimas eleições. “Precisamos ouvir, reconhecer nossos erros, defender nosso legado e falar dos problemas concretos das famílias: renda, segurança, impostos, saúde, educação e oportunidades”, disse.
Ao mesmo tempo, Dirceu deverá insistir na avaliação de que foi alvo da criminalização da política. “Quanto a acusações, respondo com fatos e decisões judiciais, sem aceitar a criminalização da política, mas também sem transformar a campanha em ajuste de contas”, constatou.
A reconstrução da presença petista no interior também passaria, segundo ele, por uma linguagem capaz de alcançar trabalhadores e famílias que não se identificam com o discurso tradicional do partido. Motoristas, entregadores de aplicativos, microempreendedores individuais, terceirizados e profissionais autônomos, por exemplo, formam parte do mercado de trabalho que o PT precisaria alcançar.
Para o ex-ministro, esses grupos integram uma nova classe trabalhadora e não podem ser compreendidos somente por meio das formas tradicionais de emprego e representação. Dirceu avalia que esses profissionais buscam autonomia, mas também enfrentam insegurança de renda, falta de proteção social e riscos no exercício de suas atividades.
“Esses trabalhadores fazem parte da nova classe trabalhadora e não podem ser tratados apenas com as categorias do passado. Precisamos conciliar autonomia de organização e proteção social, garantindo remuneração justa, previdência, seguro contra acidentes, transparência dos algoritmos, crédito e menos burocracia”, afirmou. “Não é fato que eles aceitem a superexploração e os riscos da profissão no trânsito. Eles já lutam por um piso, pagamento por quilômetro rodado, assistência médica e previdência, adicional noturno e descanso semanal em suas convenções informais com os trustes que dominam o setor.”
Dirceu citou ainda a mobilização pelo fim da escala de trabalho 6×1 (seis dias de trabalho por um de descanso). Segundo ele, a pauta tem o apoio de 84% da juventude, mobilizando inclusive aqueles que não estão inseridos em categorias profissionais organizadas nos moldes tradicionais.
Sindicatos e novas formas de organização
A relação com o sindicalismo permanece, na avaliação de Dirceu, como uma das bases políticas e sociais do PT. O partido nasceu com forte participação do movimento sindical, e o ex-ministro considera que esse vínculo continua necessário para a defesa da democracia, dos direitos sociais e da redução das desigualdades.
Na visão dele, porém, as mudanças no mercado de trabalho exigem que os sindicatos ampliem sua capacidade de organização e representação, alcançando também terceirizados, profissionais autônomos, trabalhadores de aplicativos, mulheres e jovens. “Os sindicatos têm condições de recuperar grande protagonismo político se combinarem sua experiência histórica com novas formas de organização e representação”, considerou.
Eleitorado evangélico
As mudanças religiosas ocorridas desde a fundação do PT representam outro desafio para o partido, segundo o ex-ministro. Em seus primeiros anos, a legenda manteve relação próxima com setores da Igreja Católica ligados às Comunidades Eclesiais de Base. O crescimento das igrejas evangélicas alterou esse cenário e ampliou a importância desse segmento nas disputas eleitorais.
Dirceu reconheceu que o PT enfrenta desconfiança entre parte dos evangélicos. Ele atribuiu essa distância à desinformação, às diferenças culturais e ao uso de uma linguagem política que, em algumas ocasiões, pode ser percebida como hostil à fé.
Na sua avaliação, as igrejas evangélicas cresceram também por oferecerem convivência, cuidado e pertencimento em territórios onde o Estado e as organizações políticas nem sempre estão presentes. “O diálogo do PT com o segmento evangélico precisa ser permanente e respeitoso e, acima de tudo, tratar dos problemas reais das famílias, sem renunciar à liberdade religiosa, aos direitos e ao Estado laico”, disse.
O ex-ministro citou a educação em tempo integral e o ensino médio profissional como exemplos de políticas que podem unir famílias de diferentes religiões. “As famílias evangélicas, como as católicas e outras, querem e defendem, por exemplo, a educação em tempo integral e o ensino médio profissional, com paz e prosperidade acima da religião, que nunca deve nos dividir”, declarou.
Para ele, as divergências políticas não devem ser apresentadas como conflito entre o partido e a religião. “O que nos contrapõe não é a religião, mas diferentes visões sobre os problemas econômicos, sociais e culturais do nosso Brasil”, disse.
Israel Moreira – Publicado originalmente no Diário Campineiro em 25 de julho de 2026
